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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 1 - Ano I - Julho/Agosto/Setembro 2005 - ISSN: 1809-2888

A antropologia na base da espiritualidade

Francisco Catão

 

O termo espiritualidade, como resumiu Bruno Secondin[1], aparece na literatura latina cristã no decurso do século V, traduzindo, porém, o grego “pneumatiké”, ou seja, no seu significado pneumatológico, exprimindo uma vida no Espírito Santo em nós. Mais tarde, porém, dado que esta vida no Espírito é um privilégio da humanidade, capaz de se abrir à transcendência pela sua atividade de conhecimento e de amor, o termo espiritualidade vai adquirir um sentido antropológico, designando a vida humana no seu sentido mais alto, como sabedoria, vida de conhecimento e amor dos valores transcendentes.

 

A história do termo vai, pois, no sentido inverso das nossas tendências atuais. Vemos primeiro a natureza e depois a graça, quando pela história, “espiritualidade” designava em primeiro lugar a graça, a vocação sobrenatural à comunhão com Deus, que fazia a dignidade do ser humano criado por Deus, e somente depois, quando se passou a privilegiar a análise das essências antes de se considerar os existentes concretos, espiritualidade passou a designar uma qualidade específica do ser humano, dotado como nenhuma outra criatura material, da capacidade de conhecer e amar a Deus, ou, do desejo de Deus, como diz a Tradição, retomada na base do Catecismo da Igreja Católica[2].

 

Pode-se considerar que essa inversão histórica é responsável não só pela ambigüidade atual do termo espírito, senão pelo obscurecimento, pelo menos no Ocidente, da natureza propriamente espiritual, pneumática, ou sobrenatural do cristianismo como dizemos, encarando a vida da graça nos moldes das estruturas espirituais da própria natureza humana criada e reservando o termo Espírito, pneuma, à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, cuja a ação no mundo dos humanos é cada vez mais considerada como excepcional, acrescentada para finalidades particulares, ao dom essencial da vida divina que nos é comunicada pelo Filho de Deus.

 

A reversão desta situação se deve em grande parte ao Vaticano II[3]. Acentuando a importância da teologia trinitária, documentos com a Constituição Lumen Gentium[4] e o Decreto sobre as Missões, Ad Gentes[5] sublinham a presença imanente do Espírito na comunidade cristã e em cada um dos fiéis, pondo assim em evidência, segundo a melhor tradição dos padres gregos[6], o caráter sobrenatural ou pneumático da espiritualidade cristã.

 

A vida humana é chamada a ser uma vida no Espírito, como insistiu fortemente o subsídio de preparação ao milênio no ano de 1998[7], não só porque somente no Espírito podemos experimentar e conhecer Deus como Deus, mas porque na economia da salvação, realizada pela missão do Filho e do Espírito, o Verbo e o Espírito são inseparáveis, desde as origens do mundo até a consumação final do desígnio do Pai[8]. Retoma-se assim o belíssimo tema de santo Irineu, que via no Filho e no Espírito as duas mãos do Pai[9].

 

Pode-se dizer que o que caracteriza da atual Teologia do Espírito Santo, ou Pneumatologia, é, na expressão de Congar, no seu discurso de abertura do 1º Congresso de Pneumatologia em 1992, que  “entendemos hoje por Pneumatologia não a teologia da terceira Pessoa em si mesma, mas o impacto de uma consideração ativa do Espírito sobre a maneira de ver a Igreja, sua vida e seus membros”.

 

Esta, aliás, a linha adotada por João Paulo II na sua bela Encíclica sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e do Mundo[10], abordando, pela raiz, uma problemática até hoje não inteiramente resolvida, de focalizar os diversos aspectos da ação do Espírito na história, tanto o desafio da santificação encarnada nas realidades humanas, como o das manifestações extraordinárias do Espírito, em que tendem a se concentrar os movimentos carismáticos[11].

 

Há muito a se fazer na compreensão da ação do Espírito na Igreja, tendo em vista, em particular, a problemática brasileira dos choques, aparentemente inevitáveis, entre os objetivos das pastorais libertadoras e a concepção de vida pessoal e comunitária que prevalece nos diversos movimentos de tendência carismática. Todavia pensamos que uma obra como a de Congar[12], publicada no fim da década dos 70, em três volumes, possa contribuir para esclarecer as mais importantes questões que estão em jogo.

 

No primeiro volume, O Espírito na Economia, depois de uma preciosa nota introdutória sobre a Experiência, que figura entre os textos teológicos mais lúcidos sobre o tema, Congar estuda, , a manifestação do Espírito tal como se deu e foi entendida nas Escrituras e na história do cristianismo, com seus altos e baixos, até Vaticano II.

 

O segundo volume, Ele é o Senhor e dá a vida, depois de analisar a ação do Espírito como alma da Igreja e sopro divino que se faz sentir na vida em nossas vidas pessoais, Congar elabora o primeiro estudo sistemático da Renovação Carismática e conclui o volume mostrando a presença atuante do Espírito em todo o mundo.

 

O terceiro volume, O rio que corre no Oriente e no Ocidente, contém uma importante análise das doutrinas oriental e ocidental sobre a Trindade, na base da maneira de entender a ação do Espírito nos sacramentos.

 

O segredo da pneumatologia é a sua vinculação estreita com a realização do desígnio de Deus no Cristo Jesus, salvaguardando sempre a santificação como participação antecipada na vida de Deus, quer na intimidade da oração, quer na transformação da sociedade segundo o Evangelho.

 

[1] “Espiritualidade”: a história de uma palavra, em Bruno Secondin, Espiritualidade em diálogo, novos cenários da experiência espiritual, São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 27-40

[2] Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Paulinas e associadas, 1993, nº 27

[3] Vaticano II, Mensagens Discursos e Documentos. São Paulo: Paulinas, 1998, numa nova tradução dos originais feita por Francisco Catão, enriquecida de vários índices, inclusive um índice analítico, que permite aceder aos principais textos que tratam de determinados assuntos.

[4] Vaticano II, Lumen Gentium. São Paulo: Paulinas, 2001 (col. A voz do Papa, nº 31)

[5] Vaticano II, Ad gentes. São Paulo: Paulinas, 2002 (col. A voz do Papa, nº 42)

[6] Sobre as perspectivas renovadoras da tradição grega, cf. Volodomer Koubetch, Da ciração à parusia. São Paulo: Paulinas, 2004 e, mais informativo, Enrico Morini, O Oriente do Ocidente: Os ortodoxos. São Paulo: Paulinas, 2005.

[7]“No Espírito”, em Comissão Teológico-Histórica do Grande Jubileu, Senhor, a terra está repleta do teu Espírito. São Paulo: Paulinas, 1997, pp. 17-24

[8] A missão conjunta do Filho e do Espírito em Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Paulinas e associadas, 1993, Iª Parte, 2ª seção, nn.  689-690; 702-747

[9] Cf. Pe. Luiz Eustáquio dos Santos Nogueira, O Espírito e o Verbo, as duas mãos do Pai. São Paulo: Paulinas, 1995

[10] João Paulo II, Dominum et vivificantem. São Paulo: Paulinas, 1986

[11] Veja-se a respeito o estudo polêmico de Victor Codina, Creio no Espírito Santo, Pneumatologia narrativa.  São Paulo: Paulinas, 1997

[12] Cardeal Yves  Congar, Creio no Espírito Santo. São Paulo: Paulinas, 2005, em 3 volumes.