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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 40 – Ano VIII – Outubro/Novembro/Dezembro 2012 – ISSN: 1809-2888

A grande prece

Pe. Alfredo José Gonçalves, CS

Quando Antônio entra no barraco,
oito pares de olhos grudam-se ávidos em suas mãos.
O olhar das crianças traduz ingênua e ruidosa expectativa;
o olhar de Maria, a esposa, expressa silenciosa aflição;
o olhar do pai-velho evidencia infinita e dolorosa compreensão.
Hipnotizado, Antônio olha também para as próprias mãos:
Vazias! mais uma vez, vazias!
Como ontem, como na semana passada – sempre vazias!
Os olhares de sua gente vão subindo para o rosto.
Devagar, e como que temendo o pior,
Contemplam, mudos, o homem da casa.
Os olhares se cruzam e se fixam numa dor sem palavras.
Um silêncio pesado envolve o barraco,
um sofrimento tão antigo como a pobreza revela toda sua nudez.

Antônio encontra-se desempregado há quinze meses,
Procura “bicos” para sobreviver com a família.
No momento, vende sorvete no centro da cidade,
Consegue com isso algumas “migalhas” para as nove bocas.
A janta de hoje é arroz puro com ralos grãos de feijão;
de mistura, meia dúzia de banana para dividir entre todos.
As crianças comem em silêncio,
Antônio e Maria comem em silêncio,
o avô, pai-velho, come em silêncio.
E todos sentem, no fundo das entranhas,
a mordida mais leve, mas ininterrupta da fome;
uma fome sem idade sem remédio – herança da família.

Ninguém ousa falar, é hora de dormir.
Todos se amontoam no mesmo cômodo,
Em algumas camas e colchões pelo chão.
Por muito tempo, houve-se ruídos:
gente que se mexe, que geme, que resmunga.
A fome rói e o sono demora a chegar,
até que o cansaço é mais forte
e reina finalmente completa imobilidade.

Somente Antônio e Maria permanecem de olhos acesos.
Quietos, mudos – um tendo consciência da vigília do outro.
Olhos fixos no escuro, ambos sentindo o fardo que carregam.
No meio da noite a mão de Antônio procura a mão de Maria;
as mãos se entrelaçam, se apertam, se acariciam.
Imensa ternura invade os corações, inunda a alma dolorida.
Em silêncio se beijam, em silêncio se atraem, em silêncio se amam.
Dois pares de lágrimas rolam grossas e quentes,
– se misturam, se fundem e se fecundam –
erguendo a Deus a grande prece da Esperança.

Alfredo J. Gonçalves, CS
São Paulo, 21 de julho de 1986