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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 40 – Ano VIII – Outubro/Novembro/Dezembro 2012 – ISSN: 1809-2888

A Oração

Pe. Alfredo José Gonçalves, CS

Como quem lhe sobra tempo e não sabe o que fazer com ele,
ponho-me a entrar e sair de algumas livrarias do centro de São Paulo,
sem deixar escapar os velhos sebos com seus velhos livros.
Há títulos sensacionalistas e há outros de caráter técnico,
há títulos que surfam na onda da auto-ajuda e do sagrado
e há outros dispostos segundo as regras do marketing e da publicidade,
há títulos ultrapassados e outros insignificantes…

Mas também há títulos cobiçados:
filosofia, história, crítica literária, economia, antropologia, etc.
Quase todos proibitivos pelo preço.
Dividido entre a vontade de comprar e o remorso de mais um gasto dispensável,
acabo adquirindo algo sobre sociologia da arte.
Retorno à rua, percorro os calçadões,
cruzo algumas praças e atravesso o viaduto Santa Efigênia.
Quase imperceptivelmente, encontro-me no largo São Bento.
A Igreja encontra-se aberta e convida-me a entrar.
Acolhem-me uma atmosfera de penumbra, música sacra e mistério.
Aos poucos me dou conta que não estou buscando

descanso para as pernas ou o corpo, embora cansado.
O que busco, com uma sofreguidão inconsciente e inconfessável,
é repouso para os ouvidos e os olhos, para a cabeça e o coração,
água viva para uma alma sedenta.
De fora, como um rio que segue o seu curso,
chega ainda o rumorejar da cidade,
filtrado pelas grossas e antigas paredes do tempo.
Mas ali dentro, pouco a pouco, uma certa operação química
transforma em melodia esses rumores polifônicos.

Então me dou conta que estou em oração!

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
São Paulo, 10 de julho de 2009