Acesso ao Portal Paulinas

Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 40 – Ano VIII – Outubro/Novembro/Dezembro 2012 – ISSN: 1809-2888

Oração na madrugada

Pe. Alfredo José Gonçalves, CS

Já deu meia noite e não consigo dormir
A dois passos de minha cama, como que plantada no meio do quarto
Uma imagem viva teima em fixar em mim seu olhar
É Maria de Nazaré!
Não, não é a mãe de Jesus.
Mas também é mãe. Mãe de dez filhos menores.
Dias atrás fui visitá-la
Mora em um cortiço, na rua Tomás de Lima, em pleno coração da cidade
Desta vez, porém, não cheguei a entrar em seu cubículo
Abraçada a quatro ou cinco crianças, no portão da entrada
Mãe e filhas aguardavam o pai que se aproximava
Bêbado, cambaleante, tirando a roupa e xingando
Vinha cortando a rua e tropeçando nos próprios passos.
Muita gente assistia a cena
Alguns faziam dela um verdadeiro espetáculo.

Então, Meu Deus, vi a dor de perto
Uma dor funda, antiga e sem trégua no rosto daquela mulher
Uma dor de vergonha e medo no olhar aflito daquelas crianças
Mãe e filhas choravam em silêncio
E o silêncio doía mais, muito mais, do que o choro
Duas pessoas ajudavam o marido e pai a chegar em casa
Outras riam disfarçadamente, algumas passavam indiferentes
E ela, D. Maria, me olhou em desespero e perguntou:
“o que é que eu faço, padre?”

Agora ela está ali, a dois passos de minha cama
De novo faz a pergunta e de novo não há resposta!
Com uma angústia mordendo o peito, levanto e venho rezar,
Rezar escrevendo, se isso é possível
E a imagem de Maria de Nazaré se torna ainda mais viva,
Seu rosto de sofrimento ganha uma nitidez espantosa
Sua fragilidade aparece com toda força
Vejo-a, Meu Deus, nua, só e desamparada
E vejo outras Marias, Meu Deus, tantas Marias!
Marias com vidas igualmente quebradas,
Marias abandonadas por seus companheiros
Marias, algumas negras, e por isso ainda mais sofridas.

Continuo escrevendo e tento rezar
Mas, como? Onde estás, ó Pai? Por que permaneces surdo? Por que te calas?
A dor de Maria de Nazaré, de suas filhas e de tantas outras Marias
Essa dor não Te diz nada? Nada tens a dizer?
Silêncio…
Sim, o silêncio é total e misterioso
Lá fora a noite cresce e se faz mais escura
Aqui dentro cresce a agonia solitária
Agonia que, de tão presente, dá quase para tocar
Chega a ser sólida, chega a doer fisicamente
E saber que daqui a pouco Valdemar, seu marido
Irá procurar emprego e terminar o dia pelos bares!
E saber que daqui a pouco ela, uma mulher tão frágil
Deverá tomar esse imenso fardo nos ombros e seguir adiante!
E Tu, ó Pai, continuas mudo? Indiferente? Num céu distante?
A noite avança e a agonia se faz mais densa.

Tomo nas mãos a Bíblia e ponho-me a folhear suas páginas
Procuro um salmo apropriado para esta hora
Mas onde achar algo para tanta e tão profunda dor?
Dor que está ali, a algumas quadras de minha porta
E que se multiplica aos milhões por esta cidade de pedra
Dor que, silenciosa e sorrateiramente
Penetra pelas frestas de minha janela
E me faz vir aqui rezar e escrever!
Dor que a gente quase pode ver de tão real
Quase pode tocar como uma ferida que teima em não cicatrizar.

Por um bom tempo fico parado, escuto o silêncio
E, coisa estranha, lentamente a agonia vai se desfazendo
De onde vem esta paz, se a dor continua ali a dois passos?
Imperceptivelmente sinto-me acalmar
Mas, ao mesmo tempo, sei que lá fora o sofrimento não é menor
Que paradoxo é esse? Ou será cansaço, falsidade, ilusão?
Não, não tenho a resposta: mas, no escuro, sinto alguma coisa
Relembro com força o olhar, as mãos e as palavras de D. Maria
Relembro o carinho infinito com que acarinhavam a cabecinha das crianças
Relembro a expressão de um amor doloroso, sim
Mas cheio de ternura e compaixão para com o marido
Sim, relembro pequenos gestos de uma mulher tão frágil na aparência
E que, neste momento, me parece tão forte e destemida
Vejo-a novamente ali, na minha frente
É a mesma Maria de Nazaré, mas é já outra!
Alguém que se ergue com um vigor incomum e outra vez me fixa
Mas agora não há mais perguntas em seu olhar
Não há desespero, não há solidão
Há, isso sim, uma valentia tenaz e subterrânea
O bater surdo de um coração que, apesar de tudo, teima em viver
Sinto-a ainda franzina e encurvada pelo sofrimento, sim.
Mas sua fraqueza explícita irradia uma luz oculta
Brilham seus olhos, trabalham suas mãos, caminham seus pés
E toda ela respira um oxigênio novo e cheio de vida.

Volto às páginas da Bíblia
Aqui e ali leio trechos desconexos.
Paro de escrever e ponho-me a caminhar de um lado para o outro
Onde estão as interrogações, antes tão veementes?
E então pressinto a misteriosa pedagogia de Deus:
A nenhuma pergunta respondeu diretamente,
Silenciou, apenas silenciou!
E no silêncio, com imensa sabedoria
Forçou-me a voltar à cena, à D. Maria e a tantas outras Marias
Fez-me ver que ali mesmo, no meio do mais profundo sofrimento
Com o fio oculto de uma dor que já dura séculos
As mulheres vão tecendo a esperança da vida
Sim, Pai querido, uma vez mais a oração me devolve à realidade
Procuro a montanha e Tu me reconduzes à rua
Busco mar calmo e Tu me lanças em meio à tempestade,
Tento um refúgio e Tu me apontas o cotidiano
Mas não me deixas só, Tua luz faz ver veredas escondidas!

A madrugada se aproxima, o dia já vem perto
Deus permanece silencioso, mas agora sua presença me envolve
É hora de voltar à cama e procurar dormir um pouco
Eu Te agradeço Pai por esta … Oração?

São Paulo, 01 de março de 1992