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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 9 - Ano III - Janeiro/Fevereiro 2007 - ISSN: 1809-2888

Messias que vem…

Pedro Lima Vasconcellos e Rafael Rodrigues da Silva

    Veio de novo o Natal, o nascimento de Jesus que, para cristãos e cristãs, é o messias de Deus. Tendo em vista esta festa que recém celebramos, sugerimos a seguir algumas reflexões sobre a questão do messianismo na Bíblia, na história de Israel e das primeiras comunidades seguidoras de Jesus de Nazaré.

    Ventos novos. Tempo de esperança, de utopias e do sonho que vem. É uma ardente expectativa como diz Paulo para a comunidade romana (“a própria criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus” Rm 8,19). Na espera do messias se encontra a busca de uma “terra sem males” e da instauração de um reino de paz. Na história do povo de Israel o reinado é um projeto falido aos olhos da profecia e do movimento camponês que aguça a mudança pela mudança e por um novo projeto sócio-econômico. O messianismo em Israel e Judá caminha por diferentes rumos. Em Judá prevaleceu um projeto essencialmente monárquico; enquanto Israel desenvolveu projetos de esperança e de tradições tribais. Prevalecem diferentes tradições. O êxodo e o tribalismo em Israel e Sião e Davi em Judá.

    Messias é uma palavra hebraica que significa “ungido” (sua tradução grega é “Cristo”). Utilizada em vários contextos e situações, ela particularmente é associada à figura do rei, mas não se restringe a ele; ao contrário, muitas vezes as expressões messiânicas em Israel são anti-monárquicas ou dispensam a monarquia. Por essa razão fala-se de movimentos messiânicos na medida em que eles se vêem profundamente comprometidos com mudanças radicais na forma de a sociedade se organizar, em todos os seus níveis.

    Os messianismos adquirem seu maior sentido no contexto das lutas sociais. Principalmente na luta contra o desânimo que se alastra em tempos de crise, as violências que são reproduzidas no cotidiano e os projetos e manobras políticas que acabam desfazendo os desejos. Assim o messianismo vai abrindo brechas e inventando perspectivas. Os movimentos messiânicos tanto da Bíblia quanto da nossa história criam novas realidades e apresentam modelos alternativos e cheios de vigor comunitário e de solidariedade. Neste sentido devemos perceber os movimentos messiânicos como movimentos que não só arriscam sondar novos caminhos, mas que se encontra grávido de projetos revolucionários, de utopias, sonhos, prazeres e desejos. Os messianismos também apontam para a memória vivida e para os passos dados. Por isso que na Bíblia vamos encontrar os vários rostos do messianismo: profético-popular, monárquico, sapiencial, apocalíptico.

    Quanto ao messianismo no Novo Testamento, também precisamos falar no plural. Houve compreensões messiânicas e não messiânicas de Jesus no seio das comunidades que o seguiram nos tempos primeiros, com horizontes bastante diferenciados e perspectivas novas. Há que se levar em conta, ainda, que nos dias de Jesus a terra de Israel vivia uma efervescência messiânica privilegiada, cujo conhecimento só ajudará na compreensão mais adequada das razões pelas quais seguidores e seguidoras de Jesus ousaram reconhecê-lo como messias. Perceberemos que falar de messianismo é muito mais do que dar um qualificativo ou atributo a alguém; envolve inapelavelmente uma coletividade, uma comunidade messiânica.

    Resumindo, para a comunidade não bastava falar a respeito de Jesus, que ele era o messias, o filho de Davi, ou ainda o novo Moisés. Cada uma destas afirmações carregava muito conteúdo, e indicava formas muito concretas de a comunidade se situar diante da realidade e dos desafios que o dia-a-dia colocava.