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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 4 - Ano II - Março/Abril 2006 - ISSN: 1809-2888

Quem semeia vento, colhe tempestade!

A leitura da profecia de Oséias sobre a política de Israel

Rafael Rodrigues da Silva

     Nestes tempos de guerra e de confrontos políticos, econômicos e culturais nos deparamos com a grande crise do capital e o “colapso da modernização”. Crise… Colapso… Os atos opressores de Israel e do seu comandante de plantão (Sharom) só vêm a confirmar a grande crise do ethos mundial, dos sistemas econômicos e das tentativas de paz (ações que não conseguem suprimir a exploração, a opressão e as desigualdades sociais). O que a leitura da Bíblia pode nos ajudar na análise das dificuldades de entendimento entre israelenses e palestinos? Por que Israel ataca e oprime os palestinos? Quais os interesses internacionais na manutenção e fomento do conflito? Vamos nos deixar inquietar por estas e outras questões, caminhando nas trilhas deixadas pela profecia de Oséias.

     Tempos de crise na Bíblia tem a ver com a política econômica implantada pelos reis e pelos impérios. Política econômica que faz o povo sangrar. Muita exploração e repressão. Naqueles tempos os camponeses, os pobres e os trabalhadores eram duplamente oprimidos e explorados. Eram tributados pelos reis, que por sua vez, exploravam ainda mais, pois eram obrigados a pagar tributos e taxas aos impérios. Pensemos no VIII século que na sua primeira metade é marcado pelo auge econômico e pela política de prosperidade e progresso de Jeroboão II. Este rei que governou 41 anos utilizou todos os instrumentos para tornar Israel um país no mesmo patamar das grandes potências. Imagine Israel na concorrência econômica com o Egito e com a Assíria! Jeroboão implantou uma grande política de importação e exportação e intentou controlar as rotas comerciais. Para isso precisou ampliar as forças militares, aumentar a tributação e criar um grande aparato administrativo. O que significou estas “medidas”, ou melhor dizendo, esta política econômica para o povo camponês? Acelerou o empobrecimento e muitos se foram de suas terras. Esta política econômica de Jeroboão abriu as portas de Israel para os interesses internacionais.

     Na segunda metade do VIII século se instaura a crise econômica, as lutas pelo poder. Golpes e mais golpes. Até encontramos reis que não conseguem se manter no trono por muito tempo, por exemplo o rei Selum que reinou por um mês (veja 2 Rs 15,13). Nestes tempos de crise é que aparece a profecia de Oséias. Profecia que desde o cotidiano das camponesas e dos camponeses denuncia os desmandos do poder, as medidas loucas e ingênuas dos reis. Com muita ironia e sabedoria popular é que o livro de Oséias apresenta a análise. Eis dois provérbios: “Quem semeia vento, colhe tempestade. Talo sem espiga não pode dar farinha e, mesmo que desse, os estrangeiros é que iriam comer” (8,7). “O ladrão invade a casa, enquanto do lado de fora, uma quadrilha assalta” (7,1).

     A crise está na ordem do dia. A profecia de Oséias busca desmascará-la, pois a vida naqueles dias estava cheia de crises mascaradas e de desnudamentos ousados. Os ditos proverbiais na profecia de Oséias confirmam esta situação. Uma situação de perdas e de empobrecimento, pois Israel segue a política econômica do império assírio. Devemos perguntar para a profecia da comunidade de Oséias quais eram os instrumentos e mecanismos que estavam por trás desta situação. Por isso que a profecia denuncia a roubalheira (exploração econômica), as manobras, planos e medidas promovidas pelos reis e chefes. Em Oséias 4,1-3 nos deparamos com a abertura de um processo contra os governantes do país (interessante que no capítulo 2 a profecia abre um processo contra a prostituição), pois “não há mais fidelidade, nem amor, nem conhecimento de Deus no país. Há juramento falso e mentira, assassínio e roubo, adultério e violência; e sangue derramado se ajunta a sangue derramado…“. A política econômica de Israel seguindo as regras impostas pela economia imperial (pagamento de altos tributos) aumentou e acelerou o empobrecimento através do roubo do fruto do trabalho e da violência. Violência e exploração andam de mãos dadas. Para a implementação de tais manobras, os reis e chefes de Israel têm dois instrumentos eficazes: o exército e a religião. O exército, enquanto aparelho opressor e repressor, toma a produção na forma da violência física, promovendo assassínio e derramando sangue. Já a religião toma os frutos da produção pela ideologia. Em nome de Deus, das festas de colheita e do templo falsificam, prostituem e adulteram a aliança e o projeto clânico de partilha e igualdade. Nesta perspectiva devemos ler a frase central da profecia de Oséias que denuncia a morte do povo por falta de conhecimento e pela perda da solidariedade: “Pois eu quero solidariedade e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6). A política econômica de Israel imposta e levada às últimas conseqüências pelos monarcas e autoridades está fazendo a terra gemer e a vida desaparecer. É a destruição da criação. Eis a grande prostituição denunciada pela profecia de Oséias.

     A marca da profecia de Oséias é análise para o que está diante dos olhos. Profecia que busca um projeto de esperança frente às conseqüências políticas e sócio-econômicas dos reis e da corte de Israel. Aliás os capítulos 5 a 7 de Oséias se referem à invasão assíria de 733-732 a.C., que resultou em deportação, anexação do território de Israel e, sobretudo, numa profunda crise que se abateu sobre o povo das vilas e aldeias. São estes fatos que levam a comunidade profética em torno de Oséias a memorizar suas palavras e registrar a procura por justiça e solidariedade. Podemos dizer que as comunidades leram as palavras de Oséias com um olhar renovado, nascido da procura por justiça, na busca de Deus e na vivência da solidariedade.

     Mas para brotar a solidariedade capaz de espalhar sementes e germinar o novo diante da crise e da perda de esperança faz-se necessário três caminhos de análise: análise da atuação política dos governantes que “roubam terras” (5,10), fazem alianças com os impérios (5,14 e 7,11) e promovem golpes que derrubam todos os seus reis (7,3-7); análise das práticas religiosas que negam o projeto de Javé, pois estão voltadas para os sacrifícios que sustentam os ídolos e fazem bem aos sacerdotes; e a análise da prostituição enquanto um conjunto de falsidades (política, econômica, religiosa) que leva a Efraim a seguir o nada (5,11). Nesta perspectiva a profecia vai, por um lado, condenar as práticas na sociedade que não respeita o povo, as crianças e as mulheres e, por outro lado, projetar expectativas para que aconteça o amanhã das mudanças e de dias melhores. Projetos de esperança. É o amanhã da “solidariedade” e do “conhecimento de Deus” que a cada dia ajuda a comunidade a ler o passado e a história. Habilita a comunidade no caminho da solidariedade a buscar o que Deus pede e realizar o que o povo precisa.

     “Quem semeia vento colhe tempestade!” e “talo sem espiga não pode dar farinha, mesmo que desse, os estrangeiros é que iriam comer!” É o que a profecia de Oséias tem a dizer para o Israel de Sharon e para os Estados Unidos de Bush. Estes governantes de plantão que estão semeando a guerra contra o terrorismo, já aplicam, desde longa data, o terrorismo de Estado. É a arma do grande terror para combater aqueles que são classificados como terroristas. Terror contra o terror. Lá nos tempos de Oséias a grande dominação dos assírios promove rivalidades, produz mais empobrecimento e gera mais poder (tanto o nacional controlado quanto o internacional prepotente).

     Que as palavras proféticas e a tentativa de promover a solidariedade da comunidade oseânica sejam para nós: provocação e força para resistir aos desmandos dos poderosos; coragem para organizar a crítica e a denúncia; e, sobretudo, certeza de continuar caminhando para a construção de um mundo mais justo e solidário.