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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 56 – Ano XIII – Setembro/Dezembro 2017 – ISSN: 1809-2888

Congresso Internacional do Centenário de Fátima – Pensar Fátima: leituras interdisciplinares

Abertura

Há 100 anos, algo especial despontou no lugar em que nos encontramos hoje, conhecido mundialmente simplesmente como Fátima. Ninguém imaginaria, na ocasião, o que viria a acontecer aqui – e em muitos outros lugar, a partir daqui – ao longo destes 100 anos. Foi um século de intensa experiência espiritual, nos mais variados sentidos em que este conceito tem vindo a ser compreendido.

Um acontecimento de revelação, no sentido mais genérico do termo, está na origem de tudo. Três crianças humildes foram sujeitos de experiências fortes, que incluíram a visão de um Anjo e de Maria, assim como a recepção de uma mensagem com elementos muito variados. Esse foi o ponto de partida. Mas o desenvolvimento foi multifacetado. Houve, por um lado, a avaliação eclesial e certa coordenação do desenvolvimento do que hoje é este lugar, sobretudo como espaço de oração e como dinamizador de vida eclesial, com impacto em todo o país e mesmo para além dele; houve, por outro lado mas não necessariamente em oposição, um movimento popular crescente, que foi transformando este lugar em destino de peregrinação, com dinamismos pessoais e sociais muito variados, mais ou menos heterodoxos, mas sempre no acolhimento das diversas sensibilidades pessoais e grupais. Houve mesmo reações polêmicas, mais ou menos sentimentais e radicais, que, contudo, não deixaram de contribuir para a clarificação do que se passava.

De fato, há cem anos não era bem claro, nem para os pastorinhos, o que estava acontecendo. Aliás, isso é perfeitamente normal nestes fenômenos. Cem anos passados, ainda hoje nos escapa muito do que aconteceu e do que continua a acontecer, de tal modo que o nosso trabalho de compreensão não encontra descanso.

É o que pretende, em espírito de serviço e humildade, este Congresso: praticar o exercício exigente e cuidadoso da melhor compreensão dos fenômenos, ou seja, daquilo que acontece, sempre na consciência de que o que acontece é sempre mais rico do que aquilo que sobre isso pode exprimir o nosso discurso, com mais ou menos clarividência. Fátima dará sempre mais a pensar do que aquilo que o pensado e o dito possam formular. Mas, ao dar-nos que pensar, temos obrigação de não esmorecer no exercício do pensamento crítico e compreensivo, sob pena de não correspondermos ao que se nos dá.

Este congresso não cai do céu, como algo inédito e inesperado. É o desfecho natural de um processo longo. Nesse sentido, também não pode constituir um ponto final, pois um processo tão longo terá, necessariamente, desenvolvimentos posteriores. No últimos 20 anos, o Santuário tem desenvolvido uma atividade intensa de reflexão sobre o fenômeno de Fátima, nas suas mais diversas dimensões. Realizaram-se já numerosos congressos e simpósios sobre muitos aspectos do que aqui aconteceu e acontece. Se juntarmos a esta atividade – claramente documentada numa pequena biblioteca de atas, com uma notável riqueza de perspetivas – a publicação da documentação crítica e outras atividades afins, podemos dizer que, entre os mais significativos santuários mundiais, Fátima é um daqueles que mais seriamente se tem dedicado ao estudo de si mesmo. Isso, aliás, ficou bem patente nas inúmeras publicações, dos mais diversos perfis, a propósito do centenário: em realidade, nenhuma trouxe qualquer elemento à luz do dia que não estivesse já publicado e estudado pelo próprio santuário, mesmo que isso não fosse do conhecimento do denominado grande público. É claro que há muitos elementos daquilo que vai acontecendo em Fátima que ainda precisam de reflexão e estudo. Mas temos que reconhecer Fátima como modelo de transparência na avaliação crítica de si mesma.

Ao longo dos últimos sete anos, de forma claramente articulada, o Santuário foi promovendo iniciativas para a celebração do primeiro centenário. Nesse processo incluíram-se simpósios anuais. Este congresso assume-se, embora limitadamente, como uma espécie de síntese final desse trabalho. Por isso, escolheu um perfil diverso do habitual: não se concentra num tema específico, mas procura abordar o fenômeno de Fátima em muitas das suas dimensões – sem pretender esgotá-las, como é evidente. Ao mesmo tempo, para fazer justiça à pluralidade e plasticidade de Fátima, assim como à sua vocação de transparência e abertura, resolveu desenhar-se como congresso universitário, com possibilidade de proposta de comunicações. O único critério de escolha foi, nesse contexto, o critério científico, garantido por uma Comissão isenta e já habituada a estes processos, em contexto universitário. Pensamos, deste modo, poder fazer uma espécie de ponto da situação sobre o que aconteceu nestes últimos cem anos, para assim lançar uma base que permita abordagens futuras mais especializadas ainda.

Como tem sido habitual, para este trabalho de reflexão científica, o Santuário de Fátima tem contado com a colaboração da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Trata-se de uma parceria muito fértil, que já tem produzido excelentes frutos. Em nome de toda a organização, a quem agradeço a colaboração altamente profissional, e em nome da Comissão Científica, cuja intervenção foi essencial para a salvaguarda da isenção e valor acadêmico deste evento, faço votos de que estes dias sejam dedicados a intensa reflexão, com a fertilidade que só o esforço do pensamento pode produzir. Que saibamos, no nosso pensamento e no nosso debate, corresponder àquilo que se nos revela e que, sem dúvida, nos convoca a um caminho com futuro. Um bom congresso para todos.

Encerramento

Chegamos ao fim de um percurso intenso e muito rico: rico pela qualidade da reflexão desenvolvida ao longo destes dias e rico pela variedade dos pontos de vista. Rico também pelo ambiente único de Fátima e pelo elevado profissionalismo da estrutura organizativa do Santuário, como vem sendo habitual nestas ocasiões.

A variedade das abordagens teria que provocar, inevitavelmente, perspetivas não completamente concordantes. Nessa pluralidade, conseguimos, contudo, que o debate se mantivesse fiel não apenas à caridade cristã e ao respeito ético que a todos nos obriga, mas também à qualidade acadêmica típica de um evento como este, nunca resvalando para outros níveis, eventualmente menos dignos. Por tudo isso nos congratulamos e agradecemos, sem qualquer distinção, a todos os participantes. É possível debater abertamente Fátima, em Fátima, numa iniciativa promovida pelo próprio Santuário. Ainda que eventualmente por razões diversas, todos estamos profundamente interessados nesse debate sério e fértil.

Neste momento final, não vou fazer a síntese do que aqui foi dito. Mesmo que me limitasse às comunicações plenárias, ela foram todas tão ricas, que seria indecente pretender resumi-las. Para uma meditação mais aprofundada serão disponibilizadas, mais tarde, a atas do congresso, permitindo um estudo adequado. Limitar-me-ei, neste breve momento, a exprimir alguns aspectos da ressonância que em mim provocou aquilo que escutei ao longo destes dias e que, evidentemente, foi apenas uma parte do que aconteceu, pois não tenho o dom da ubiquidade. O que vou dizer vale, por isso, apenas como reação pessoal.

Há uma questão de fundo que claramente foi transversal a todas as intervenções: o povo, seja especificamente como Povo de Deus, seja num sentido ainda mais vasto, como articulação da humanidade, é o sujeito primordial de Fátima e, nesse sentido, primeira mediação do que possa aqui ser considerado um fenômeno revelador. E se, para o crente, Deus é o sujeito primordial do que aqui acontece, ele é-o precisamente através do povo e no povo. E fala-se em povo sem distinções de classe, de formação ou de cultura, pois que em Fátima, desde o início, o que fala é a humanidade na sua simplicidade mais básica e mais profunda, que confunde as pretensões dos arrogantes e a todos nos coloca no nosso lugar, que é o lugar comum da nossa pertença a uma condição de procura, de vulnerabilidade, de peregrinos. Para além disso, quando quando falamos em povo como sujeito, isso não é entendido em sentido coletivista, mas num sentido claramente personalista e interpersonalista, pois é essa a dimensão onde partilhamos, individualmente e em liberdade, a nossa condição comum, os nossos dramas comuns e também as nossas esperanças comuns.

É neste sentido, também, que deverá ser entendido o desenvolvimento do conjunto de narrativas do fenômeno de Fátima, ao longo destes 100 anos, das quais é feita a sua e a nossa história. O historiador é convocado, em nome da seriedade científica, a prestar atenção à imensa variedade dessas narrativas ou dessas traduções do fenômeno, elaborando ele próprio traduções que deverão, antes de tudo, manter-se fiéis ao que acontece nas e através das pessoas com as quais e nas quais o fenômeno se vai construindo.

Essas permanentes traduções não são simplesmente sujeito da história, mas também, e precisamente por isso mesmo, sujeito da teologia. Tal como no caso de muitas outras mariofanias ao longo da história do cristianismo, Fátima é um espaço e um tempo em que a criatividade popular desafia não apenas as estruturas eclesiais e a hierarquia, mas também as estruturas políticas e os detentores do poder, assim como o pensamento, nomeadamente teológico. Trata-se permanentemente da irrupção do surpreendente, a partir de periferias em relação aos centros da organização socioeclesial, que dá que pensar e que, assim, possibilita transformação da linguagem e da experiência existencial. Evidentemente que este processo está necessariamente marcado por tensões e discernimento, determinantes de qualquer processo de crescimento ou simplesmente de transformação. Mas, nestes fenômenos, o sensus fidelium impede a comunidade eclesial de estagnar na pura repetição do já dito, do já experimentado, inaugurando territórios novos, de acordo com as próprias transformações da história e fazendo história.

Nesse sentido, por exemplo, é interessante constatar em que medida o fenômeno de Fátima se inscreve no processo de relação da comunidade crente com os desafios da modernidade, os quais levariam a uma alteração de paradigma, não só quanto à compreensão da própria Igreja (como se confirmou no Concílio do Vaticano II), como à compreensão mesmo do exercício da autoridade no seu interior e no modo de relação ao mundo, como se tem verificado na relação do papado com Fátima. A dimensão universal da Igreja e a sua compreensão sob o signo do serviço são tópicos que acompanharam as transformações eclesiais do último século, e que estão em consonância com o que tem acontecido em Fátima.

Esta perspetiva teológica, que coloca o povo como sujeito principal, não contradiz, de modo nenhum, o protagonismo de Deus nos acontecimentos, nomeadamente na mediação de Maria. Porque a ação de Deus nos acontecimentos da história é a ação do seu Espírito. E a ação do seu Espírito vê-se, antes de tudo, na ação do povo eclesial. Essa é a sua mediação histórica fundamental. Rigorosamente, o processo de discernimento eclesial e mesmo teológico dos acontecimentos que irrompem do povo reside, precisamente, na possibilidade de identificar, nessa ação natural, espontânea e criativa, a ação do próprio Espírito, sem podermos separar uma da outra. Porque Deus não age em nós senão na e pela nossa ação. Só assim é possível não separar dualisticamente o natural e o sobrenatural, como se fossem dois patamares, ao mesmo tempo separados e pensados como se pertencessem ao mesmo nível ontológico. Em realidade, o sobrenatural dá-se-nos sempre, como dimensão diferente, em determinado acontecimento natural. E essa dimensão é-nos dada a ver aos olhos da fé. Mas não nos é dada a ver em si mesma; ou melhor, se nos é dada a ver e a escutar em si mesma, é-o na medida em que vemos e escutamos as suas mediações, pois só essas podem ser vistas e escutadas diretamente. É nesse sentido que a ação transformadora do Espírito, no seu efeito sobre os três pastorinhos, por exemplo, possa ser vista e contemplada precisamente na resposta humana que estes deram à interpelação. Como tal, o apelo vê-se na resposta e a dimensão teológica – ou teologal e sobrenatural – torna-se inseparável da sua dimensão antropológica ou humana.

Esta, enquanto tal, é acessível às ciências sociais e humanas, que podem ajudar-nos muito na compreensão da complexidade e variedade daquilo que acontece. Manifesta-se aqui uma tarefa importante para uma fenomenologia do fenômeno Fátima: uma fenomenologia como leitura histórica das imensas narrativas e correspondentes traduções do fenômeno; uma fenomenologia social das dinâmicas pessoais e interpessoais que originam experiências humanamente significativas; mesmo uma fenomenologia filosófica que procure um sentido antropológico fundamental, tal como nos é dado ou revelado naquilo que acontece e na diversidade das suas manifestações.

Do ponto de vista especificamente teológico, este ponto de partida exige que a antropologia seja assumida como incontornável porta de entrada na teologia, nunca a abandonando. E não basta uma antropologia geral, eventualmente de perfil transcendental, mas uma antropologia incarnada, que explore fenomenologicamente a complexidade com que os humanos vivem a sua existência e nela experimentam sentido. Isso será especialmente significativo no desenvolvimento de uma Mariologia para Fátima e a partir de Fátima, como Mariologia a partir do humano; mas também no desenvolvimento de uma Eclesiologia a partir de Fátima, como eclesiologia a partir do povo.

Se é certo que este Congresso constitui, em Fátima, uma manifestação de certa maturidade da reflexão teológica que aqui vem sendo feita e que, pelo pensamento de teólogos vindos de vários pontos do mundo, já permite algumas sínteses importantes, não é menos certo que deixa desafios para desenvolvimentos posteriores. Por um lado, fica o desafio do desenvolvimento de uma fenomenologia diversificada, desde as sua raízes mais empíricas, a partir do estudo de atitudes singulares e partilhadas, passando pelas leituras da história e desembocando mesmo numa dimensão propriamente filosófica, como ficou dito. Por outro lado, sem se desligar dessa aproximação fenomenológica à realidade, fica-nos o desafio de desenvolver mais explicitamente uma Mariologia e uma Eclesiologia atentas a este fenômeno, assim como uma leitura de todos os seus elementos em matriz pneumatológica, como compreensão de uma teologia da história enquanto ação encarnada do Espírito, que inspira e suscita a fé sempre de modo novo.

Nesse sentido, Fátima será, durante muito tempo, um lugar privilegiado, seja para uma experiência religiosa plural e verdadeiramente viva, numa época de permanente reconfiguração dessa experiência, em modalidades muito diversas daquelas que determinavam os contextos de há um século, seja para a reflexão científica, incluindo a teológica, a partir precisamente dessa reconfiguração. Desafios não faltam e penso que também não faltará capacidade e competência para lhes responder à altura. Que o Espírito, na mediação de Maria, suscite em todos nós capacidade de acolher esse apelo e de, humildemente, dar continuidade a uma história que não para.

Por:  João Manuel Duque – Doutor em teologia e professor catedrático da Universidade Católica Portuguesa (Unidade Braga). Coordenador do Congresso Internacional do centenário de Fátima, realizado em Fátima de 21 a 24 de junho de 2017.