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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 56 – Ano XIII – Setembro/Dezembro 2017 – ISSN: 1809-2888

José Maria Pires, o bispo de pés descalços

Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba-PB, nascido em 15/03/1919, na pequenina cidade de Córregos em Minas Gerais, nordeste do estado, participou das quatro sessões do Vaticano II. À época do evento maior da Igreja Católica, ele era o único bispo negro brasileiro e uma das vozes mais importantes do episcopado brasileiro ao assumir a nova imagem/organização/papel de Igreja proposta pelo Concílio.

Despertaria com sua pregação a vontade de tantos irmãos na ajuda eficaz aos que sofrem injustiças. Atenderia o apelo de Deus na história e não permaneceria impassível diante do grito do sofredor. Ele percebera que a Igreja estava mudando e alegremente avançou com coragem! É essa coisa simples feita por gente simples que é capaz de mudar o mundo, simplesmente.

Este filho de gente pobre teve por pais Eleutério Augusto Pires e Pedrelina Maria de Jesus, e aprendeu desde cedo que devia permanecer com os pés no chão. Em um depoimento emocionante nos funerais do presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira, em 29/08/1976, disse: “Eu andei pelas mesmas ruas pelas quais Juscelino andou. Ele andava de pés descalços e eu também. Era comum as crianças pobres andarem descalças na rua”. Ao pisar o chão de sua terra natal, aprendeu as lições permanentes de como ser padre, bispo e pastor. Jamais esqueceu de que é alguém de pés descalços. E é nesse contato com o chão que se tornou um pastor fiel. Foi ordenado padre em Diamantina-MG, em 20/12/1941 (completando 70 anos de sacerdócio!), atuando como pároco, diretor de colégio e missionário diocesano.

Foi sagrado bispo em Diamantina, Minas Gerais, em 22/09/1957, iniciando seu ministério na diocese de Araçuai-MG, como seu terceiro bispo, de 1957 a 1965. Seu lema episcopal era Scientiam Salutis (a ciência da salvação).

Nomeado pelo Papa Paulo VI, foi o quarto arcebispo metropolitano da Paraíba de 02.12.1965 até 29.11.1995, quando renunciou por idade. Desde então, como bispo emérito peregrino, viveu como pregador ambulante, levando o Evangelho com vigor, o que causa uma santa inveja.

Desde muito cedo aprendeu a arte do bem falar: silêncio primeiro, palavra adequada depois. Em seguida assumiu com primor e delicadeza a certeza de ser um bispo pastor: amigo, evangélico, simples e, sobretudo, servidor dos empobrecidos.

Sua ação em favor dos simples é um programa de vida. Vejamos seu discurso de posse como arcebispo metropolitano da Paraíba, secundado por Dom Helder Pessoa Câmara, em plena ditadura militar brasileira, com sua ideologia da segurança nacional, que nega a liberdade e a dignidade da pessoa humana. Dom Helder assim se expressa para falar de Dom José: “Dom José Maria vai às causas, vai às raízes… E fala claro, sem perder a serenidade, mas chamando as coisas pelos nomes. Quem quiser livrar-se de um Cristianismo desencarnado, quem quiser livrar-se de ensinamentos inodoros, incolores, pregados no vácuo, leia suas páginas (prefácio do livro Do Centro para a margem, Editora Acauã, Paraíba, 1978, p. 7)”.

São suas estas palavras coerentes, ao tomar posse como arcebispo: “Não quero trazer-vos uma mentalidade de Minas Gerais, costume ou uma civilização do estado em que nasci, naquilo em que esta civilização, esta mentalidade, estes costumes forem diferentes da civilização, da mentalidade e dos costumes da Paraíba. Assim como Cristo, fazendo-se homem, assumiu a natureza humana e, por assim dizer, ocultou, guardou o que ele era, como Deus, e apresentou-se a nós sem deixar de ser Deus, mas foi aprendendo conosco a ser homem, a viver como a humanidade, também o novo prelado vem aqui não para ensinar, mas antes de tudo para aprender a ser paraibano. Eu iniciarei o meu ministério aprendendo convosco. Só me integrando é que poderei cumprir minha missão de servir (É santa a terra em que piso, João Pessoa-PB, 26.03.1966, in Sampaio Geraldo Lopes Ribeiro, Dom José Maria Pires: uma voz fiel à mudança social, Ed. Paulus, 2005, p. 17)”.

O diálogo, tal como foi preconizado na bela carta programática do Papa Paulo VI, Ecclesiam Suam, e ainda melhor expresso na Constituição Lumen Gentium, se tornou para dom José Maria o critério da vida pastoral. Tornar-se-ia exímio defensor do povo negro, sendo em sua vida alcunhado por dois apelidos carinhosos e densamente simbólicos: no começo de sua vida episcopal foi chamado de dom Pelé (por Dom José Vicente Távora, bispo dos operários), ligando-o ao futebolista brasileiro de fama internacional. Depois de alguns anos, foi “renomeado” por dom Pedro Casaldáliga (prelado emérito de São Felix) como dom Zumbi, para conectá-lo à causa do povo negro no Brasil, fazendo memória do líder dos quilombos brasileiros, Zumbi dos Palmares. Os apelidos não conseguiram retirar-lhe a identidade mais profunda, que é a de alguém que sempre assumiu sua origem, sua etnia e seu amor aos pobres como uma chave interpretativa do mundo e como forma efetiva da encarnação cristã no Nordeste brasileiro, mergulhado em tantas injustiças e contradições que exigiam fidelidade radical ao Cristo. Dom José não foi um homem de meias palavras nem de meias ações. Quem o ouvia sempre percebia que ele estava inteiro no que dizia, naquilo que falava e no que sonhava e compartilhava com seus interlocutores. Ao ouvi-lo, sentia-se que se estava diante de um verdadeiro pastor: não havia arrogância em suas palavras. Sentíamo-nos encorajados e desafiados, jamais amedrontados. Dom José foi o verdadeiro irmão e pastor, que não abdicava do diálogo, pois cria e amava o interlocutor.

Ao seguir os passos deste bispo negro, em todos os recantos da terra brasileira podíamos vê-lo animando as pequenas comunidades de base, as causas dos empobrecidos e as lutas por justiça social, sem extremismos nem arroubos oportunistas. Estaria entre os operários da primeira hora, quando surgiu a Comissão Pastoral da Terra-CPT, e ainda entre os apoiadores e animadores do Conselho Indigenista Missionário, CIMI, e ainda de cada uma das dezenas de pastorais sociais, gestadas pelo povo e acolhidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, quando das presidências proféticas de Dom Aloísio Lorscheider, Dom Ivo Lorscheiter e dom Luciano Mendes de Almeida, naquilo que foi chamado momento de ouro da Igreja brasileira, vivido entre as décadas de 1970 e 1980. Veria nascer com as dores de parto a poética Missa dos Quilombos, depois proibida, e estaria entre os animadores da Missa da Terra Sem Males, também proscrita, e que pretendiam abrir novos caminhos litúrgicos na inculturação e diálogo inter-religioso. Enfrentaria a ganância de fazendeiros e coronéis nordestinos, com a simplicidade das pombas. Não pediria favores aos poderes políticos ou econômicos, confiando sempre na Palavra de Deus e na compaixão dos pobres. O caminho pode ser mais lento e singelo, mas as raízes serão sempre mais profundas e seguras. Ele clamaria contra os latifundiários como Nabot contra o rei Acab. Disse em 05 de março de 1976, na carta pastoral para todos os diocesanos: “quando se cansar a paciência do pobre que está sendo esmagado pelos poderosos, a de Deus também se cansará e Deus virá fazer a justiça que os homens se recusaram a fazer (Carta Pastoral de março de 1976)”.

Dom José viu, compreendeu e falou do sofrimento dos agricultores. Conheceu os problemas do campo e assumiu um compromisso como igreja para ser a Igreja com os fracos e oprimidos, ou seja, uma Igreja que toma posição ao lado do pobre por fidelidade ao Evangelho e por amor ao povo. Denunciou o sistema capitalista por seus frutos e por sua segregação das grandes massas. Diria dom José Maria Pires em 1967, em plena ditadura militar brasileira: “Dar esmolas, todos acham que é razoável. Mas aceitar que é um roubo guardar o supérfluo quando a outros falta o necessário, isto lhes cheira a marxismo. Realmente, dentro da mentalidade dominante, não é fácil aceitar a receita da Populorum Progressio, que é a mesma do Evangelho”.

Sua mensagem é de vida plena e, sobretudo, de conversão. Dizia que é preciso ir do centro para a margem. Este foi seu contínuo processo vital. Movimentar-se em direção dos pequenos. Ir para a margem da sociedade, da Igreja, do mundo. Faria este gesto ético e religioso motivado por uma profunda vivência de Cristo, além de ter sido um aprendiz permanente na prática da não violência ativa, como ação de firmeza permanente. Como discípulo de Cristo, sabia mostrar as riquezas do Concílio Vaticano II, como um projeto de vida. Uma Igreja que se distancie dos “centros” e que se aproxime das “margens” do mundo. Uma Igreja que não espere nem confie nos poderosos e nos senhores do mundo. Uma Igreja que deve continuar a cumprir a missão profética de proclamar os direitos dos oprimidos mesmo sabendo que sobre ela pesa a cólera dos governantes, pois só esta fé autêntica é que poderá salvar a pobres e ricos. Nesta Igreja não há lugar para acomodados e passivos. Disse de forma incisiva: “O catolicismo brasileiro não criou no povo uma consciência de sua cultura, de seus valores, de sua idiossincrasia. A consciência dominante do povo é hierárquica, como aceitação passiva e talvez o maior obstáculo ao verdadeiro desenvolvimento, pois gera acomodação e conformismo”.

Para dom José Maria Pires, o oitavo sacramento era a alegria. Sempre se diz que, quando alguém alegre entra em uma casa, é como se, em um quarto escuro, a janela se abrisse para a luz entrar. Essa foi a tarefa de dom José: com os pés descalços, abrir as janelas da Santa Igreja. Não terá sido esse o pedido de um outro José, o bergamasco Roncalli, quando convocou o Concílio? Ainda hoje precisamos de bispos que abram as janelas de nossas Igrejas para que a alegria do Cristo nos rejuvenesça. Gente como dom José, de pés descalços, camisa arregaçada na luta pelos pobres e uma alegria convicta no coração, verdadeiros filhos e herdeiros do Concílio.

Efe faleceu em 27 de agosto de 2017, com 98,4 anos de muita profecia, mergulho na vida e pé na estrada ao lado de Jesus peregrino. Foi em paz como um santo quilombola de Deus.

 

Por: Fernando Altemeyer Junior – Prof. Dr. Fernando Altemeyer Júnior, 60 anos, mestre em Teologia e Ciências da Religião pela Universidade Católica de Louvain-la-Neuve, Bélgica. Licenciado em Filosofia. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Professor da PUC-SP.