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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 56 – Ano XIII – Setembro/Dezembro 2017 – ISSN: 1809-2888

Curso de Iniciação Logosófica

A frase que cede licença poética ao título que escolhi é uma espécie de refrão de uma música de Marisa Monte, que conta a história de José Datrino, um homem comum do Bairro da Cafelândia em São Paulo que, após um trágico acidente com um circo em sua cidade, em 1961, abandona o que descreve como mundo material e começa a percorrer as ruas consolando famílias das mais de 500 pessoas mortas no incêndio.

Conhecido pelo bordão “Gentileza gera gentileza”, o Profeta Gentileza, como ficou conhecido, se mudou depois para o Rio de Janeiro na década de 1970 e passou a pintar palavras de otimismo, entrar em ônibus e pregar sua mensagem de paz.

Não quero dizer com todas as letras que considero José Datrino um autêntico modelo logosófico, mas o trago neste início do texto para falar do que Pecotche chamou de “Nervosismo ambiente”. As pesquisas norte-americanas vêm mostrando índices preocupantes da elevação do estresse no mundo e a quantidade de doenças de todos os tipos associadas a isso. Uma das causas disso é a chamada “servidão moderna”, ou o fato de que o desejo de possuir, de ganhar mais, de ter mais conforto, leva as pessoas a jornadas de trabalho enlouquecedoras, onde valores elementares como família e descanso são facilmente substituídos por comida e bebida em excesso.

Quando o livro menciona que “As formosas flores da realidade jamais são vistas nos campos teóricos”, me recordo de uma das afirmações mais clássicas do livro O Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos”. Aqui levanto o questionamento sobre o que de fato é essencial ao homem deste tempo? Pecotche aponta que a ausência de ações que me atrevo a chamar de holísticas ou de uma profunda conexão do homem com a totalidade, com a realidade inteira e frutuosa que se encontra fora dele, aparecem facilmente no que define como “Busca infrutífera do saber”.

O homem moderno é “sabido” e não sábio, tem muito conhecimento científico e comum acumulado, mas tal conhecimento, como apontoaram as críticas da Escola de Frankfurt, não foram capazes de melhorar significativamente a qualidade e as condições de vida desse ser humano, dando a entender o que em um dos textos considerados sagrados afirma como: ganhar o mundo e perder a alma.

Acho importante o comentário de Pecotche, quando afirma que a Logosofia não pretende ensinar nada do que o homem já sabe, e sim do que ignora. Nesse sentido, não estamos deprimidos, estressados, e sim distraídos, não construímos uma consciência profunda do que somos e de como vivemos, por isso temos passado nossa vida errantes neste mundo que a cada dia torna-se mais complexo.

Pecotche recorda que existem duas atitudes a ser tomadas ante tal complexidade: a teórica (especulativa) e a vital (intensiva), nos colocando diante de uma nova rota para a realização da vida e destino do homem. A primeira atitude é a de conhecer para conhecer e a segunda de conhecer para ser, para viver bem, para respeitar as pessoas e o mundo. O sertanejo comum parece saber bem disso, quando afirma o dito popular: “Não basta saber com a cabeça, é preciso saber com a vida”.

Mas como alcançar tal estado de consciência? Aqui entra a importância das defesas mentais na preservação e condução da vida, de modo que, como Pecotche coloca: “Não basta que os menos pretendam orientar os mais afetados pelas diversas formas que assume a confusão reinante, pois isso seria de todo insuficiente diante do impulso das correntes ideológicas extremadas, as quais adquirem, em muitos casos, o caráter de verdadeiras epidemias mentais”.

O homem está diante da totalidade, mas não se vê assim, ao contrário, nota-se maior que o mundo que o cerca, daí esquece o outro, que toma parte com ele no mundo. Ao destituir o próprio mundo do mistério, do sagrado, do numinoso, o homem também perdeu grande forma simbólica, pois deixou de reconhecer que faz parte de um todo e, como tal, deve respeitar esse todo que Pecotche chama de Causa primeira ou criação do cosmo, de modo que a lei de evolução gravitando no processo de superação consciente.

Ao construir sua Cosmogênese, algo comum a todas as culturas, recobra o que Fernando Pessoa afirma: “o mito é o nada que é o tudo”, de modo que a ciência mais racional, ou a mais logosófica são uma resposta válida mas provisória nesse contexto. Para Pecotche: “A mente humana é um fragmento da mente universal; uma consequência ou derivação da grande causa original ou mente cósmica, e causa primeira do homem”.

O homem se privou das grandes explicações, da consciência do tremendum, das perguntas mais essenciais à nossa existência. De onde viemos, onde estamos e para onde vamos? A evolução consciente começa com o processo que conduz o homem ao conhecimento de si mesmo. Sem se conhecer, não é possível conhecer mais nada, dadas nossas projeções internas, nosso juízo apriorístico.

As noções que preparam a investigação interna estão presentes na vida e destino do homem, como ressalta o documentário “Eu Maior”: quanto mais se amplia o raio do nosso conhecimento, maior é o contato com aquilo que constitui o nosso desconhecimento. O guru oriental e padre jesuíta Anthony de Melo afirma que tudo o que precisamos para sermos 100% do que somos está depositado em nossos cinco sentidos, de modo que se pode afirmar com certa verdade que o homem é aquilo que faz de si mesmo, de modo que ninguém é sem ter se feito assim.

Pecotche coloca em seu texto que três zonas estão facilmente acessíveis ao homem: interna, circundante e transcendente. De acordo com o texto: “A primeira pertence por inteiro ao mundo interno, em sua maior parte inexplorado, do qual só temos as vagas referências ou as alusões imprecisas dos que acreditaram haver penetrado nele. A segunda zona pertence ao

mundo circundante, onde intervém o fator familiar, social e geral, e nele o ser, adestrado logosoficamente, desenvolve suas atividades comuns e confronta, em árdua e nobre luta, seus conhecimentos com os daqueles que atuam no meio ao qual está vinculado acidental ou permanentemente. A terceira é o mundo metafísico, transcendente ou causal, onde o homem, guiado sempre pelo conhecimento, encontra a justificação de tudo o que antes lhe fora incompreensível e descobre os vastos desenvolvimentos do espírito, em conexão direta com a evolução consciente de seu próprio ser”.

Nossa viagem em busca do que somos começa dentro de nós, permeia o que está à nossa volta e contempla, à medida que ganha consciência mais ampla, a totalidade das coisas. “O homem deve, pois, preparar o espírito depurando sua mente, iluminando sua inteligência e enriquecendo sua consciência com os conhecimentos que, vinculando-o a essas três zonas, lhe permitam alternar nelas sem dificuldade, com sabedoria, honestidade e limpeza moral”.

Conforme já foi enunciado, a Logosofia é uma doutrina ético-filosófica, fundada pelo pensador argentino González Pecotche, que busca ensinar o homem a conquistar sua autotransformação através da evolução consciente do pensamento, que assim se liberta de influências sugestivas. A logosofia é uma palavra construída a partir do grego λόγος, que significa consciência elevada, saber, conhecimento, e σοφία que é a relação mais profunda que o homem pode estabelecer com algo, no caso com a sabedoria ligada à práxis da vida. Busca-se oferecer ferramentas de ordem conceitual e prática para obter o autoaperfeiçoamento, por meio de um processo de evolução consciente que conduz ao conhecimento de si mesmo.

Desde o ponto de vista logosófico, a crença (considerando aqui nosso sistema de crenças, inclusive, na razão) foi uma das causas que mais entorpeceu o desenvolvimento moral e espiritual do ser humano, ao produzir certo grau de inibição mental que dificulta e ainda chega a anular a função de razoar, afirmando que assim é como o homem fica exposto ao engano e má-fé daqueles que tiram partido dessa situação, chegando a admitir até as coisas mais inverossímeis.

O método logosófico consiste de três partes: a expositiva, a aplicada e a de aperfeiçoamento. As três partes se encontram intimamente ligadas entre si e juntas concorrem à finalidade da evolução consciente do indivíduo e sua exaltação ao máximo de conhecimento humano na ordem transcendente. Falar do Método, aplicá-lo no dia a dia e buscar sua evolução cabe a qualquer um de nós, desde que queiramos.

Pecotche acredita que temos em nosso sistema mental duas mentes. Enquanto a mente inferior ou comum – da qual se valeu até aqui o indivíduo – se detém automaticamente nas fronteiras da superior, pois suas possibilidades não vão mais longe, a superior tem poder sobre os dois grandes mundos, o físico e o metafísico. Quem usar o sistema mental sem o necessário adestramento o fará à semelhança de quem toca um instrumento de música sem ter aprendido sua técnica. De nada adianta viver uma vida de forma inconsciente, como lembra o filósofo Platão: “Uma vida não examinada não é digna de ser vivida”.

Gênese, vida e atividade dos pensamentos são, portanto, constructos que nos permitem atingir a realização de nós mesmos, como explica o autor. Nosso pensamento é uma entidade autônoma que nos forma e nos constrói. Somos o que pensamos e como pensamos. Lucio Pakter relembra que nossa estrutura de pensamento é determinante na manutenção de nosso caráter, de nossa moral. Sendo que os pensamentos fazem a vida, por constituírem eles seus agentes naturais, lógico é que a vida deva ser, por sua vez, o meio onde os pensamentos nascem, se desenvolvem e cumprem a atividade que ela lhes proporciona. Em outras palavras, os pensamentos são entidades autônomas que se procriam e adquirem vida ativa na mente humana, de onde em seguida podem passar para outras mentes sem a menor dificuldade.

Dessa maneira, manter sentimento destrutivos e sabotadores como temor ou de medo de ariscar e falhar, ou desenvolver neuroses coletivas como pânico, a sugestão ou o terror, ou mesmo postar fotos de pseudofelicidade em redes sociais diuturnamente, faz com que nos tornemos mais alienados ao que realmente nos aflige hoje.

Nosso espírito é a nossa manifestação que influencia diretamente em nossa vida, de modo que a verdadeira função do espírito para a Logosofia é de que o ser humano está integrado pelo ente físico ou alma e pelo ente espírito. “Para o primeiro foi fixado um destino comum. Desenvolve-se física e intelectualmente sujeito à poderosa influência do mundo material; do mundo das grandes empresas, dos magnos descobrimentos e dos atos heroicos; dos aperfeiçoamentos técnicos estupendos, das construções maravilhosas e das também assombrosas criações artísticas”.

Segundo Pecotche, o ente físico usa o sistema mental para os assuntos exclusivamente físicos ou materiais. Estamos nos referindo à maioria e excetuando sempre os que pensam em sentido mais elevado. Pois bem, o espírito ali em nada intervém. Somente quando o homem busca a si mesmo, utilizando os conhecimentos inerentes a esse fim, começa para ele um verdadeiro despertar.

São as nossas experiências internas e externas que nos dão certa noção de verdade, norte e via de perfeição. Para Pecotche, levada para fora do mundo íntimo, a prática do ensinamento e a observação são aplicadas então na mútua convivência, onde aparece delimitada a segunda parte do campo experimental, surpreendendo-se ali elementos de grande valor para completar nossos conhecimentos e descobrir aspectos similares aos determinados em nossa psicologia, ou díspares; tudo isso previne o juízo e mostra o rumo a seguir por meio da análise, até que sejam obtidas conclusões perfeitas para a compreensão individual.

Nossa experiência nos mostra que somos humanos, ou seja, seres emocionais que desenvolveram pensamento. Aqui, a Logosofia dá a conhecer o humanismo em seu conteúdo essencial, cujo exercício facilita a adoção entusiasta e consciente das regras éticas assinaladas por seu ensinamento. Cabe então perguntar conforme Battista Mondim: O que é homem? Ele é faber, religius, laboren, ele vive seus conflitos sem às vezes nem saber que se trata de conflitos, pois atribui aos deuses a causa de suas desgraças, isso quando não atribui aos outros, pois, segundo Sartre, cremos que o inferno são os outros.

O teólogo Karl Rahner, certa feita, afirmou que o homem do século XXI ou será um místico ou não será nada. Reafirmo isso dentro da minha leitura logosófica, afirmando que, ou nos conectamos com o universo, com a natureza, com as pessoas, ou vamos rapidamente desaparecer como as abelhas norte-americanas. A mística é uma das atitudes da alma que mais têm sofrido às arbitrariedades da paixão humana. Tem sido explorada em todas as formas possíveis, e à sua sombra as mais lamentáveis aberrações já foram cometidas.

Os atos de abnegação, a caridade inteligentemente interpretada, que não malogra seus frutos, a cordialidade expressa na amizade leal e sincera, são outros tantos aspectos do verdadeiro enraizamento da mística na alma humana.

Conforme nos lembra Pecotche, “a dor, o sofrimento, são também expressões místicas, quando aquele que os suporta experimenta o doce benefício que provém do bálsamo interno extraído da resignação, a qual, ao mesmo tempo que engendra a paciência, neutraliza os impulsos do desespero”. Do mesmo modo, a alegria é uma expressão mística quando é sã e respira o aroma das coisas gratas, pois é uma manifestação terna do sentir.

Acredita-se, portanto, que o homem pode ser seu próprio redentor, pode assim, como tenta salvar os outros, às vezes de maneira equivocada como xamã, benzedeiro, dervixe, sacerdote, curandeiro, médico, salvar, promover saúde, pode muito bem tornar-se consciente de si e salvar, promover sua própria saúde, de modo que tudo o que é, Espírito, Alma e Corpo, seja saudável, equilibrado, pleno e consciente; aliás, quanto mais consciente, mais pleno.

Evitar o cometimento de faltas ou erros é um princípio de redenção, e investir no “Conhece-te a ti mesmo” resultará num mito, se o ser não começar por conhecer sua verdadeira conformação psicológica e mental, isto é, seu sistema mental em sua vasta e complexa organização e funcionamento. O simples fato de evitar o cometimento de uma falta constitui o primeiro passo para a remissão das culpas, porque não as cometer é um princípio de redenção própria inquestionável.

Ante tudo o que desenhei aqui, cabe apenas perguntar novamente: Quem é mais inteligente, o livro ou a sabedoria? Somente quem se aprofundar no tesouro da Logosofia poderá se apropriar de tal resposta e propô-la com a própria vida.

Resenha da obra: PECOTCHE, Carlos Bernardo González. Curso de Iniciação Logosófica: estudo e prática dos conhecimentos que o integram. 19. ed. São Paulo: Logosófica, 2012.

Por: Gilson Xavier de Azevedo – Pós-doutorado em andamento (Lusófona/Lisboa/PT). Doutor em Ciências da Religião pela PUC-GO (2014-2017-BOLSISTA FAPEG). Mestre em Ciências da Religião pela PUC-GO (2012-2014 – BOLSISTA FAPEG). Filósofo (Dom Felício, 1998/FAEME, 2007), pedagogo (UVA-ACARAÚ, 2004) e teólogo (FAETEL, 2002/MACKENZIE, 2006), pós-graduado em Administração Escolar e Coordenação Pedagógica (UVA-RJ, 2006), Ética e cidadania (UFG, 2012), e filósofo clínico (Inst. Packter/PUC, 2013). Professor titular de Antropologia pela FAJOP (2017), Filosofia do Direito e Filosofia Empresarial pela FAQUI (desde 2006); coordenador do NAED (Núcleo de Apoio à Educação à distância pela FAQUI (2017); docente efetivo da Universidade Estadual de Goiás, Câmpus Quirinópolis (Concurso 2013); docente convidado de Pós-graduação pela UEG, Campus Mineiros, GO; docente convidado e ex-preceptor do curso de Pedagogia pela UNIUBE; ex-coordenador do curso de Pedagogia da UEG (2010-2011). Articulista. Ex-vereador suplente eleito por Quirinópolis (2012-2016). Avaliador de cursos do Guia do Estudante; editor das Revistas REEDUC-UEG, ANAIS SIMPED UEG, RECIFAQUI. Palestrante e conferencista com mais de 200 horas de atividades proferidas (gilson.azevedo@ueg.br) (http://orcid.org/0000-0001-5207-1351).