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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 11 - Ano III - Maio/Junho 2007 - ISSN: 1809-2888

Sobre as “provas” da existência de Deus

Fernando Altemeyer Jr.

    Será que devemos afirmar que Deus existe?
    Será que o podemos?
    Será que nós sabemos como fazê-lo?

    Como afirmar a existência do Eterno se somos gente encarnada na temporalidade?

    Houve tempo em que a prova de algo ou de alguém era a palavra dita e proclamada. Em tempos remotos a prova era um fio de cabelo ou da própria barba ou até um selo imperial. Nos tempos gregos, a prova se fez demonstração e lógica. Benditos Aristóteles e Pitágoras!

    Tirar a prova, no tempo de minha mãe, era o ato de verificar se as medidas do seu vestido conferiam com o corpo, agora vestido pelo molde transfigurado pela costureira.

    Há provas progressivas, que necessitam de tempo. Não se revelam em um só instante. Atuam sempre no gerúndio. Há provas de fogo, que exigem fibra e coragem para passar pelo ordálio. Apresentam-se de sopetão. Há provas que verificam autenticidade. Muitas delas só se comprovam no futuro.

    Na Bíblia, o tolo diz em seu coração que Deus não existe (Sl 14,1). Afinal, não há provas nem certezas! Essa dúvida penetra nossa inteligência e muitas vezes a ciência moderna pôs em xeque dogmas religiosos porque não apresentam provas ou evidências.

    Os filósofos deístas e os ateus também engrossam o coro dos céticos e dos contestadores. Muita gente e muito sofrimento atroz depois de duas guerras mundiais questionam qualquer crente com a pergunta incômoda: “Onde está o teu Deus?” (Sl 41,4; 78,10).

Argumentos para todos os gostos

    O pensamento filosófico criou alguns argumentos (silogismos?) para tentar responder à questão. O mais antigo é o argumento religioso, organizado nas diferentes e milenares culturas e tradições religiosas, particularmente nas grandes denominações, tais como o judaísmo, o cristianismo e o hinduísmo. As religiões afirmam a existência de Deus, pois mulheres e homens dizem ter conversado com ele e ouvido sua voz. São os interlocutores que pelejam e amam a Deus que sustentam na história dos povos que ele existe e que se comunica com a humanidade. É o que chamamos de prova por tradição. A prova está no testemunho dos interlocutores e não na personagem Deus.

    O argumento ontológico, sustentado por Anselmo de Cantuária, doutor da Igreja no século XI, afirma um silogismo a priori: Deus é o mais grandioso ser concebível (“Id quod nihil majus cogitari possit”); e como existir na realidade é superior a existir apenas no pensamento, logo Deus existe. Este argumento foi reproposto por Descartes e Spinoza. Ficamos sempre na dúvida de que falamos de algo superior e nem sempre sabemos se este ser é de fato o deus dos religiosos, dos filósofos ou expressão verbal do próprio silogismo (portanto um conceito e não uma persona).

    O argumento cosmológico, ou argumento da causa primeira, defendido por Tomás de Aquino e Samuel Clarke, entre outros. Santo Tomás criticou Anselmo e desenvolveu seu argumento pelas chamadas Cinco Vias:

1. As mudanças devem ter origem em uma causa primeira (o motor imóvel de Aristóteles).
2. Os efeitos todos devem ter uma causa original, que todos chamam Deus.
3. Se houve tempo em que nada existia, nada pode vir do nada. Logo, houve no início algo que foi a causa de todos os seres e coisas contingentes, um Ser de existência necessária, que é Deus.
4. Quanto mais perto da perfeição, mais perfeitos. Assim, deve existir um grau último e elevado de toda a bondade, que é Deus.
5. O sentido das coisas, pois tudo na natureza é dirigido para uma meta por alguém com entendimento, e a ele damos o nome de Deus.

    Há, também, o argumento teleológico, do teólogo William Paley, que busca encontrar um sentido maior em todas as coisas e seres. O maior crítico desse argumento foi David Hume.

    O argumento moral, de Immanuel Kant, busca compreender a origem de todo o bem e felicidade na fonte suprema da virtude que é Deus.

    O argumento pascaliano, chamado de aposta de Pascal, afirma que ganhamos muito e perdemos pouco crendo em sua existência, enquanto perdemos tudo e pouco ganhamos ao não crer em Deus. Segue daí que vale a pena apostar na sua existência.

    Os argumentos dos agnósticos, como o biólogo Thomas Henry Huxley, defendem a impossibilidade da existência de Deus.

    Os ateus, por sua vez, de Lucrécio a Diderot, passando por Voltaire, Sartre, Mark Twain, Feuerbach, Nietzsche, Karl Marx e Bertrand Russel, negam Deus. Alguns ateus dizem que a existência do mal é prova suficiente da inexistência de Deus.

    Mas, a partir da fé, que mais podemos dizer?

(continua)