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Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura

Edição nº 10 - Ano III - Março/Abril 2007 - ISSN: 1809-2888

Uma confissão de fé de Karl Rahner – 4ª parte

Teologia Aberta conclui aqui os excertos da confissão de fé de Karl Rahner, assim como foi registrada na recente obra de Herbert Vorgrimler: Karl Rahner – experiência de Deus em sua vida e em seu pensamento.

* * *

7. Igreja

    “A religião deve ser um convencimento meu, próprio e livre, ela deve ser experimentada no centro mais profundo da existência. Todavia essa existência só é ela mesma em uma comunidade e sociedade na qual ela se abre, dando e recebendo. Além disso, o cristianismo é uma religião histórica, vinculada a alguém muito preciso: Jesus Cristo. Eu só posso pertencer a Cristo por meio da Igreja, e não de outro modo. Por isso, não posso me aventurar a viver de nenhum modo um cristianismo privado, pois, desse modo, negaria sua origem. Por isso devo ratificar esse caráter histórico de meu cristianismo através de minha pertença eclesial. Com isso ainda não ficam afirmadas, muito pelo contrário, todas as razões para a pertença eclesial de um cristão, nem sequer as mais importantes. Porém, o que foi dito até aqui é suficiente.

    Um cristão de Igreja, como o que supomos até aqui, conhece, sem dúvida, a historicidade da Igreja. Conhece, portanto, o mais humano e o mais desumano daquilo que aconteceu nessa Igreja “na cabeça e nos membros”, no passado e no presente. Um cristão, que crê que a Igreja provém de maneira autêntica de Jesus Cristo e que crê, conseqüentemente, em sua essência como sacramento universal de salvação para todo o mundo, não pode se despreocupar totalmente dessa história da Igreja, dizendo que com ela sucede o mesmo que com outras construções históricas, afirmando que ela foi apenas a história de alguns pobres homens que, como todos os outros, se comportaram de modo terrível sobre o cenário da história universal. Ao contrário, um cristão deveria esperar e aguardar que a vitória da graça, que a Igreja deve prometer ao mundo até mesmo em sua forma de manifestar-se, se revele com glória esplendorosa em sua própria história.

    Certamente, a Igreja oferece esse tipo de revelação, que só podem negar por princípio aqueles que desprezam de modo antipático a humanidade. Contudo, o cristão desejaria que esse resplendor fosse muito mais claro. O cristão deverá tomar de modo realista esse tipo de experiência, que o obriga a ser modesto, embora ele não possa esclarecê-la totalmente e menos ainda justificá-la com um triunfalismo barato (como às vezes se interpretou aquilo que o Concílio Vaticano II queria dizer)”.

8. Fidelidade eclesial e liberdade crente

    “Uma identificação última com a essência fundamental da Igreja, que ela não pôde nem pode perder, não significa, de nenhum modo, que estejamos de acordo com todas e com cada uma das coisas que o ensinamento oficial da Igreja apresenta. Certamente, para mim, o autêntico dogma da Igreja constitui algo que me obriga absolutamente. Por isso, como cristão e como teólogo, com certa ansiedade de espírito e coração, com não pouca freqüência, devo me perguntar qual é o verdadeiro sentido de uma afirmação determinada que o magistério da Igreja mantém como dogma, a fim de lhe dar meu consentimento, de maneira honrada e tranqüila.

    Por minha parte, ao longo de minha vida, eu nunca tive a experiência de que isso foi impossível para mim. Pois, em relação com esses dogmas, sempre notei com clareza que só podem ser bem entendidos quando se destaca seu sentido em linha de abertura para o Mistério de Deus, sabendo, por outro lado, que foram formulados a partir de certos condicionamentos históricos determinados. Por isso, esses dogmas se encontram inevitavelmente vinculados a uma espécie de amálgama que, de fato, não pertence ao conteúdo da declaração dogmática, e que pode fazer até mesmo que esse conteúdo seja mal interpretado. Isso se deve também ao fato de que esses dogmas estejam formulados como regulações lingüísticas que, para ser fiéis à realidade a que fazem alusão, não deveriam permanecer sempre iguais, com as mesmas palavras com que foram formulados.

    As coisas são diferentes quando se trata deste ou daquele ensinamento relativamente subordinado, quer no campo da exegese, da teologia sistemática ou da teologia moral, que foi ou continua sendo mantida pelo magistério romano como ensinamento oficial, com a pretensão de oferecer um ensinamento vinculante, embora não tenha sido “definido”. Para evocar apenas um exemplo dos tempos mais recentes: a meu ver, nem a argumentação básica, nem a autoridade do ensinamento da Igreja, ao qual de fato se recorre, oferecem um fundamento convincente e obrigatório para aceitar a discutida doutrina de Paulo VI na Humanæ Vitæ, nem a declaração da Congregação para a Doutrina da Fé que quer excluir por princípio a ordenação das mulheres, como algo que deveria ser aplicado em todos os tempos e culturas”.

9. Risco e valor do magistério da Igreja

    “Ainda hoje se dão medidas administrativas, de fato injustificadas, pelas quais se reprime a legítima liberdade de opinião e de pesquisa dos teólogos. Não se pode justificar de antemão tais estreitezas afirmando que o magistério está diante do dilema de anunciar e proteger o puro dogma ou de simplesmente se manter calado. Por isso, não resta ao teólogo outro remédio senão trabalhar, com as forças de que disponha, a fim de que tais intervenções das instâncias doutrinais da autoridade ocorram o menor número de vezes possível, embora não exista nenhuma receita apriorística para evitá-las. Quanto ao mais, deve-se receber com paciência essas intervenções injustas, interpretando-as como expressão daquela carência e pecado que nunca faltarão na Igreja dos pecadores.

    Em último caso, nenhuma dessas coisas afeta a pertença eclesial de um cristão e de um teólogo em sua relação autenticamente existencial com a Igreja. Posso entender que existam cristãos que se sintam justificados, e até mesmo obrigados, a abandonar a Igreja, como admito que existam muitos homens de boa consciência que se sintam capacitados para realizar, no campo moral, um tipo de ações que minha consciência julga que para mim e ‘em si’ sejam condenáveis. Ora, apesar de tudo isso, para mim, continua sendo evidente o caráter eclesial de minha realidade cristã e de minha teologia”.